TERESA SEGURADO PAVÃO                                                                                                                                                                 

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Gatos, 2025

Vistas da Instalação, “Gatos” - Fundação Carmona e Costa — PT

Fotografia: António Jorge Silva 



O som da chávena a partir na gaveta.

Exercícios para aprender a lidar com a ruína - a propósito das obras de Teresa Pavão.

Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
Manoel de Barros

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O que fazer quando tudo parte? Apanhar e cuidar do que fica, do abandonado, do inútil, do desnecessário, como um dom inicial.

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Recolher o que resta, os vestígios recusados de um mundo anterior partido. Não para os reparar, mas para neles reparar: deter-se diante destes quase-nadas e dar-lhes atenção. Uma atenção talvez imerecida – e, por isso, ainda mais bela.

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Reformular as noções de perfeição e imperfeição. Interessar-se mais pela individualidade singular do pedaço partido e menos pela unidade anterior perdida. O fragmento permite atender a pormenores inesperados, que talvez no todo, dito perfeito, nos escapassem. Poderá a parte arruinada ser mais bela que o todo?

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Aceitar os cacos como mestres: ensinam-nos, desde logo, a cair (como o poema, segundo Luiza Neto Jorge), a abraçar o peso da matéria e o chão, a antecipar e a  transfigurar a queda desamparada dos corpos, a sua-nossa fragilidade. Coreografar a gravidade, ensaiar a leveza. Aprender a dançar.

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Escutar o som da explosão e da ruína que ecoa nesses restos, sem os querer esconder ou mascarar. Sem negar a perda do mundo. Não há, nestas obras de Teresa Pavão, o desejo de reconstituir o antes existente. O impulso criador não vem de conservar como era, ou terá sido. Revela uma infidelidade essencial no interior de um aparente conservadorismo. Com respeito, mas sem nostalgia, recolhe e retoma o partido e arruinado para que o reconheçamos como tal, e dá-lhe vida nova, não a função nem a forma passadas. Os fragmentos partidos não são motivo para um discurso sobre a decadência ou o fim do mundo, nem para a fuga para um qualquer paraíso perdido. A sua reutilização é um modo de lidar com a perda, de fazer luto.

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Exercitar o esquecimento criativo. A artista conduz-nos, na memória do resto, a uma forma de esquecimento disso que falta, que já não existe. Sem ficar preso aos fantasmas. O partido torna-se parte de outra coisa. Novidade que tem em si a história, sem o peso da reconstituição original.

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Descolonizar o tempo: estes cacos não são experimentados como pós-festum, eles são parte da vida presente que subsume em si a festa e o luto. O tempo não é linear. O passado não passou, tem um futuro por cumprir e possibilidades de ser alterado. Em cada fragmento adivinhamos uma história (e outras estórias possíveis) - da sua produção, das suas viagens, do seu uso – mas ela não está já escrita nem terminada, e aquilo que a peça era revela-se com outras possibilidades já existentes. Redesenha o próprio passado, revela o que lá estava e não tínhamos visto. Cada obra é um emaranhado temporal.

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Estas obras são uma forma de Vanitas - Desengano do mundo: lembram-nos que tudo passa, que a destruição não é só para contemplar no exterior, mas possibilidade íntima de cada vida – e como ela deve ser cuidada e se pode reinventar a partir da queda. Sem tom apocalíptico nem esperança iludida, a artista aponta o começo, e recomeça.   

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Emancipar o fragmento imperfeito da totalidade anterior: permitir a autonomia, deixá-lo ser aquilo que é. Essa é uma definição de liberdade – essa é uma definição de verdade – essa é uma descrição do que devemos fazer uns aos outros.

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Aprender a fazer ligamentos. Técnica antiga para consertar o arruinado, os grampos de metal, chamados “gatos”, permitem manter unidas as partes de um todo quebrado: um prato, uma terrina, uma travessa que era preciso remendar de forma consolidada. Esses agrafos remetem para um tempo – um mundo, como horizonte de possibilidades definido – em que os objectos não eram pensados para usar e deitar fora, a sua obsolescência era mais demorada. Os objectos necessitavam de atenção e cuidado. O mesmo mundo em que os tecidos eram remendados, cerzidos ou chuleados. Quando dizemos que vivemos numa sociedade materialista, talvez seja um erro repetido demasiadas vezes: na verdade, dá-se pouco atenção ao material, à materialidade, e mais ao capital simbólico do modo de aparecer. Contrariando a sua época, Teresa Pavão promove o tempo do cuidado. Da paciência. Do (re)ligar.

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Desfuncionalizar para libertar. Os gatos permitiam recuperar uma forma original e restaurar a possibilidade de uma função previamente existente. Religavam as partes de um todo. Sempre que possível, e no melhor dos casos, sem traço visível do ligamento, que ficava escondido nas costas do objecto, no lado habitualmente invisível. Aqui, o que une ganha visibilidade, expande-se, revela-se. Os ligamentos tornam-se tão relevantes como aquilo que ligam. São escultura. Autonomizam-se. Tal como aquilo que ligam também se emancipou da função passada. Inutensílios, chamar-lhes-ia Manoel de Barros. Únicos e próprios em cada caso.

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Ética da quantidade: ser contido nos elementos e incontido nas possibilidades. Contenção e desmesura. Estas peças são compostas por variações de, apenas, três elementos - assumidos na sua diferença: fragmento partido, cerâmica nova e ligamento metálico. No entanto, nascendo dessa repetição de elementos e operações, são sempre únicas e singulares. A quantidade é, por isso, também um elemento essencial, nesta exposição, no sentido da desmesura:: o número de peças desta série, o enorme trabalho de atenção a cada fragmento para criar o ligamento e a cerâmica nova, a aproximação por famílias que revela a variedade de partes possíveis de um mesmo todo; a artista sublinha a multiplicidade e abundância de acidentes e o modo sempre único de lhes responder. Nessa imensidão de peças, parece prometer o infinito.

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Nunca forçar a inserção. Assumir o desvio e o deslocamento, expor o desacerto, procurando uma nova unidade e harmonia. Aceitar a incompletude, o inacabamento, como bem.

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Recuperar a narrativa ou a palavra poética como forma de ligamento essencial. Somos fragmentados e, por isso, contamos histórias. Usamos as palavras para preencher os buracos, as falhas. Elas são o ligamento, os gatos, que acrescentamos ao mundo partido. Também estas peças permitem à artista, e aos espectadores atentos, contar ou escutar histórias. E descobrir famílias. E procurar sentido. Um suplemento de sentido.

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Há, também, textos que nos chegam como fragmentos, que só conhecemos como pedaços partidos de algo maior, mas a que não temos acesso. Como os fragmentos de Heraclito, que nos chegaram nessa forma de perda. Nesses casos, o leitor é convocado, como criador de ligamentos e novidade, a preencher as lacunas.

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Compreender-nos, à imagem destas obras, como cogito ferido, quebrado (Paul Ricoeur): temos a falibilidade como companheira. A vulnerabilidade é-nos essencial. Somos broken halleluja, como cantou Leonard Cohen. Uma “não coincidência consigo mesmo”, desproporção entre o que desejamos e o que somos. Desacertados. Em desequilibrismo essencial. Mendicantes – de mãos abertas e estendidas.

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Como estas peças que nascem por agregação do diferente, também em nós a alteridade está já no coração da identidade. Somos resultado de muitas influências, de fragmentos retomados e recriados.

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Exercitar o ser corpo. Estas obras dirigem-se ao corpo: o seu tamanho e forma são imediatamente reconhecidos pela memória do nosso corpo como pertencentes às mãos. Não se dirigem apenas aos olhos. Parecem pedir que lhes peguemos. Têm o tamanho de duas mãos unidas e abertas, de uma taça que cabe entre as mãos e se leva à boca ou se oferece a alguém. Têm o formato ancestral das primeiras obras humanas, os utensílios que permitem recolher e levar os líquidos e os alimentos à boca. Contentores, uma forma de hospitalidade, que replicam as próprias mãos.

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A dimensão corporal desta série é, também, retomada no carácter sensorial da cerâmica nova que agrega e cria uma unidade diferenciada com os fragmentos partidos antigos e os gatos. A textura da cerâmica nova é mais rugosa, não tem o brilho, nem a cor, nem os motivos dos cacos de cerâmica que formam as diferentes famílias desta série. Imperfeita, como a pele, dirigindo-se a ela, ao tacto, ao toque.

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O ofício da artista, mais do que ligar fragmentos antigos a cerâmica nova, é o de moldar a nossa atenção - com uma obra que ajuda a responder ao repto “conhece-te a ti mesmo”. Através dela, podemos aprender a lidar com a fragilidade e a louvar o vulnerável e o impermanente. Essa é a característica dos justos, segundo Tolentino Mendonça: “Começam o dia louvando o imperfeito:/ O tempo que se inclina para o lado partido”. 


Paulo Pires do Vale, 2025










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